Como vocês imaginam, um vampiro tem o privilégio de frequentar diversos ambientes… Tempos atrás falei aqui do caos e da imersão que fiz em um centro antigo e hoje falarei de Margot. Nome fictício de uma dama da sociedade vampírica, uma letrada no meio artístico contemporâneo e capaz de contar histórias como ninguém.
Nosso contato mais recente merece o relato, haja vista a boa companhia. O bom papo e tudo o mais que nos aproximou naquela noite fria e chuvosa de outono.
Estava eu envolto em meus afazeres administrativos, quando recebo a visita de um pardal. Ele bicou a janela por alguns instantes e quando se cansou ficou ali sentado me aguardando no peitoril. Ele possuía um bilhete amarrado em uma das patas e neste um número de celular. Era um papel simples, desses de impressora, que fora rasgado com pouca precisão. Porém, o número estava escrito com uma letra muito bonita, das que hoje em dia chamam de lettering.
Obviamente minha curiosidade falou mais alto. Salvei o número no smartphone e logo de cara vi que era também um número de Whats, por onde mandei um áudio:
“Quem és tu e o que procuras?”
Falei em tom simpático, ansiando um retorno breve. Todavia, este demorou… Passadas algumas horas, onde inclusive já havia esquecido do contato, quando recebi a primeira notificação. Era Margot, naquele tom de mulher mais velha e que fumou muito: “Jovenzinho, que confortante ouvir a conjugação verbal perfeita. Terias tu, tempo para um encontro em meu ateliê? Estaremos em poucos, mas tua companhia sempre me revigora…”
Aquele convite mexeu comigo, tal qual sempre que falo com Margot e tratei de responder o mais breve possível. Fiquei inclusive ansioso para tal encontro. Haja vista que a vampira sempre aproxima figuras conhecidas em eventos pomposos.
Um convite especial merece um presente significativo
Na noite seguinte recebi o convite. Este sim era muito bem trabalhado, num papal ornamentado e possivelmente feito manualmente. O lettering harmônico era o mesmo da escrita do bilhete e para finalizar ele possuía um perfume singular. Algo que me lembrou madeira e algumas ervas muito conhecidas na sociedade vampiresca, aquelas mesmas que alguns que alguns clãs ofertam aos novos membros na transformação.
No tempo que antecedeu o evento eu pensei em algumas opções de presente para minha amiga. Viajei em algumas opções, mas um contato conseguiu o roteiro original de uma peça teatral conhecida. Aproveitei para fazer propaganda e embalei junto também um frasco do elixir que estamos produzindo em parceria com o Julian.
Na noite do evento, vesti-me de acordo com a ocasião e levei Pepe como companhia. Ela estava desconfortável com a roupa chique, mas muito bem arrumada e linda do jeito dela. Achei importante embarcá-la em tais momentos. O motorista nos pegou no horário marcado e e fomos levados a uma propriedade no centro antigo. O prédio na superfície era novo, mas o evento seria em algum dos subsolos.
Alguns seguranças protegiam a entrada, vampiros em sua maioria, mas confesso que também senti a presença lobisomem. Algo compreensível se analisarmos a grande quantidade de aliados que Margot possui. Ela me serve de modelo nesse quesito, inclusive.
Um lugar amplo, charmoso e aconchegante.
Logo na saída do elevador aquele mesmo perfume do convite nos indicou que haviam pensado em cada detalhe. Das mesas, aos candelabros e espaços separados por cortinas na forma de tenda.
Uma vampira pegou o presente e o guardou com muito esmero. Em seguida nos levou até uma das tendas onde Margot os aguardava. Ela foi muito querida desde aquele momento.
- Jovenzinho, senti sua presença desde o elevador. Venha e de um abraço gelado nesta velha.
Sabe aquele sentimento de encontrar uma tia? Margot parece-me como tal e Pepe sentiu a mesma coisa.
Saímos de lá com vontade de permanecer mais tempos junto dela e de todos os outros que apareceram para “dar um abraço”. Lembramos de momentos históricos, discutimos as sociedades humana e vampiresca e novos laços foram feitos.
Proveitosamente, os encontros promovidos pela vampira, são momentos em que me sinto a vontade e despreocupado. Nessas raras ocasiões podemos sair dos problemas, desfrutar de bons papos e ampliar a cultura. Pena que dure tão pouco tempo.
Um tempo depois ela me mandou o passarinho com outro bilhete: “Onde consigo mais desse maravilhoso elixir?”