Grimório

Um dia nas minhas rotinas de Lican

Por Jean Felski em São Paulo

Publicado em 12/04/2021

Um dia nas minhas rotinas de Lican

Acordei e como de costume mais cedo que os demais. Junto de Vera fiz meu desjejum com muito café e carne fresca de capivara. O tempero secreto da Lican é um dos seus maiores segredos e faz a alegria de marmanjos, tal qual eu. Papo vai e vem e chega até nós, todo esbaforido, o Jonas. Um lican nativo da região e que era lenhador antes de se juntar a nossa alcateia e causa.

Sujeito matreiro, que atuou por muitos anos derrubando arvores e que depois da transformação se tornou protetor de Gaia.

Naquele dia ele estava bastante esbaforido e tão logo nos cumprimentou foi logo dizendo o que lhe afligia:

- Bom dia pessoal estive pelos lados do monte das duas quedas e avistei uns mal-acabados por lá. Um deles tinha equipamentos de topografia e um outro desbastou grande parte, fizeram uma clareira perto da margem esquerda da primeira queda e acamparam por lá.

- Será que era algum povo da Funai, exército? - Comentei com ele.

- Olha desse povo não sei não. Pelo menos não era ninguém conhecido ou que já tenha visto por essas bandas.

- Procura o Isaias e fica um tempo lá observando o que eles fazem. Aquela região não é dos nossos domínios, mas tem aquela tribo dos Maku que pode ter problemas com eles.

- Certo, chefe!

Esse dia fluiu tranquilo e fiz apenas as atividades corriqueiras, como a manutenção de algumas cabanas e limpar as pestes que insistem em surgiu perto da horta principal. Gosto bastante desses trabalhos pois a parte física é trabalhada, de tal forma que um velho como eu pode tirar um pouco da poeira dos músculos. Sem falar dos meus experimentos com madeira e outros materiais.

Tentamos ter uma rotina de exercícios, dia sim, outro não e todo sábado, por exemplo, promovemos uma espécie de esconde e esconde com captura de bandeira. A equipe vencedora fica de folga dos trabalhos pesados na semana seguinte.

Mais para o final do dia alimentei os javalis e aproveitei para pescar numa dos lagos naturais que ficam à beira do rio. O pôr do sol estava bonito, apesar dos muitos Paracanã que inevitavelmente perambulavam pela região. Seres minúsculos que incomodam demais e me lembram os borrachudos lá do sul.

Logo mais a noite estávamos todos a beira da fogueira. Aguardando a fritada que Vera fazia junto de outros Lican. Assim que iniciamos a janta os papos começaram, regados a muito cauim. Uma bebida fermentada de mandioca que aprendemos a fazer de uns anos pra cá.

- Sabe Carlos, passamos o dia atrás daqueles malacabado e assim que capamo o gato eu fiquei matutando. Será que o povo não era de boa fé?

- Por que acha isso Jonas?

- Não sei chefe, meu instinto pode falhar as vezes, mas, chibata! Senti algo bom deles.

- A gente pode ficar de bubuia, então?  - Comentei, feliz por ele ter percebido. Usado seus instintos.

- Sim sim, chefe!

- Toma aqui mais um gole então, amanhã tem treino cedo e é importante que vocês relaxem hoje a noite.