Dias atrás eu estava com muita sede, aquela famosa sede que acomete os vampiros e nos deixa loucos atrás do mais puro sangue. Já disse por aqui que o sangue que mais mata a nossa sede é o humano. Apesar de que o sangue dos animais inferiores também trás certa satisfação… mas cara, não é a mesma coisa!
Por causa disso, fui aonde há mais sangue disponível, o centro de uma cidade. Em tais ambientes há sempre aqueles que merecem uma ou duas mordidas. Há sempre alguém fazendo bosta e merecendo um corretivo. Há sempre um filho da puta que não devia cruzar meus caminhos.
Jaqueta, calças, all-star… peguei a BM e rodei. Gosto de usar ele, pois não faz muito barulho e consigo ficar atento com minha audição aguçada pelos arredores.
Não tardou e perto de um boteco, onde uns velhos tomavam cachaça e jogavam carteado, havia um prédio de dois andares. De dentro do lugar havia uma ou duas crianças chorando, uma outra voz de mulher mais velha e um cara putasso.
Coisas da pandemia?
Dizem que a pandemia fez aumentar esse tipo de comportamento. Onde os metidos a machões, que não sabem dialogar batem, xingam e abusam daqueles tidos como mais frágeis. Mesmo que esses sejam filhos esposas, ou gente que em algum momento foram amados
Nesse contexto, eu parei a moto e fiquei um tempo ali perto dos tiozões jogando sinuca. O jogo estava animado e quase me distraiu. Só que a fome, quando bate, desnorteia nosso foco. Principalmente, porque a violência estava grande naquele apartamento e decidi me aproximar.
Fui para um lugar mais escuro, procurei por câmeras ou curiosos e me transformei em névoa. Flutuei até uma das janelas e de lá observei. A cena deixaria qualquer perito ou legista animado e me motivou a entrar em ação.
Numa das salas havia uma mulher mais velha, com cara de vó e amarrada numa cadeira. Ela estava com a boca machucada e com um pouco de sangue no canto. Numa bochecha a vermelhidão roxeada indicava que havia recebido bofetadas.
Num sofá em posição fetal uma garotinha, em silencio, mas que parecia estar “bem”. Já no quarto a cena era podre. Havia um garotinho com as calças abaixada deixado de bruços na cama e o sujeito, também com as calças arriadas se masturbava.
Minha sede assumiu o controle
Assim, estava ali um sujeito que aos moldes da sociedade atual merecia cadeia. Então, fui para o corredor desfiz minha transformação e estourei a porto do lugar. A mulher tomou um susto e a garotinha não se mexeu.
- Pelo amor de Deus ajuda a gente moço!
Soltei ela tão rápido quanto um humano faria e percebi que havia movimentação no quarto. Ao mesmo tempo em que ela se libertava percebi o carinha indo para a porta. Com intenção de fugir.
- Senhora, chama a polícia e fala que o detetive Marcos passava pela rua e te ajudou.
Fui atrás dele e na descida das escadas o alcancei.
- Dei-lhe um soco na barriga e na empolgação quebrei-lhe algumas costelas. Ele se estremeceu, suas pernas amoleceram e ele quis se abaixar, foi quando o segurei e o levei até o carro.
Dali fomos para um local desocupado e tranquilo, onde finalmente saciei minha fome.
Em tempos antigos eu certamente acabaria com o sangue daquele corpo. Mas como a cidade faz parte dos meus limites, decidi me poupar de possíveis problemas e denunciei para a polícia.
Hoje minha sede foi saciada. Até quando eu já não sei mais… coisas da pandemia.