Os dias por essas bandas longínquas são definitivamente um calmante para a alma até daqueles que não possuem mais uma. Apesar de simplória, a fazenda da Lorna e seus irmãos era linda, como em um conto de fadas, com uma cozinha que ficava nos fundos da casa, de frente para a baía e em todo resto da casa parecia que o tempo havia parado, com pequeninas aranhas saltitando pelos cantos, flores em vasos coloridos, móveis rústicos e livros que tinham tanta poeira que quase não dava mais para enxergar os títulos nas capas.
Apesar de estar onde eu estava, por vezes e mais vezes me peguei na angústia excruciante de ligar ou mandar uma mensagem para o Fê. Não sou o tipo de “pessoa” que admiti algo com facilidade, muito pelo contrário, por muitas vezes a minha teimosia foi minha pior inimiga.
Na minha percepção após tudo o que havia ocorrido na Ordem, eu achei que talvez meu querido vampiro quisesse um tempo distante de mim e de toda loucura que foram aquelas noites intermináveis. Mais uma vez a minha teimosia venceu e eu acabei errando pois, em uma noite tranquila enquanto os irmãos de Lorna corriam por entre os vastos campos da ilha, transformados em lobisomens, eu e Lorna decidimos que seria renovador ir até um pequeno pub (o único pub) da pacata e encantadora cidade, para ela tomar uma cerveja e eu apenas acompanhá-la.
- Lili – disse ela sentando-se em um dos banquinhos do bar – Não veio para ficar? – Eu apenas balancei a cabeça como sinal de que eu havia vindo por um curto período e não para toda eternidade.
- Lô minha querida amiga, não vim aqui para fincar as minhas raízes… Quer dizer, vou ficar por aqui um tempo, mas, não para sempre. – Eu sabia que minha antiga amiga adoraria que eu morasse por lá, porém, não me vejo tão isolada assim e olha que eu sou do Texas.
- Me diz uma coisa… O vampirão lá, todo estiloso, boa pinta e tal, vale toda essa sua vontade de voltar? – O curioso é que essa pergunta nunca me foi feita, até agora e por mais que eu procure uma resposta plausível e bem formada, a única coisa que conseguiu sair dos meus lábios foi o simples:
- Sim!
Engraçado como é a vida, doía pensar nele, mesmo naquele momento. Aquela noite tinha sido uma linda noite.
Agora caminhando sozinha pela longa e infinita praia de areia, após insistir para Lorna que eu não queria correr pelada pelos campos, afinal não sou uma lobisomen; sou uma vampira sendo iluminada apenas pela luz do luar, que conseguia ver o mundo mudando a quilômetros pela praia longa e plana, com o continente parecendo apenas uma linha ao longe, pensando em como ele estaria, até que eu senti o que por semanas não sentia…
A presença inconfundível, o aroma amadeirado com limão e sangue, a única voz que não saia da minha cabeça com facilidade. Ao virar para trás, lá estava ele, calças jeans rasgadas e dobradas, camisa preta, casaco de couro e pés descalços na areia com um sorriso largo no rosto, mãos no bolso e o azul no olhar que conseguia tirar qualquer pensamento ruim da minha cabeça.
- Pensa no trampo que tive pra vir atrás de ti nessas terras antigas, vampirinha!
Eu havia decidido caminhar pela praia sozinha, com a certeza de que não haveria ninguém lá e quando me dei conta, eu já não estava tão sozinha naquela névoa.
- Fê?