Grimório

Espírito: descarrego – final

Por Jean Felski em São Paulo

Publicado em 20/04/2022

Espírito: descarrego – final

Salvo algumas impressões iniciais e a intenção de que seria necessário fazer um descarrego em mim. Jaciara se mostrou uma pessoa/lobisomem bastante seca e concentrada. Sabe daquelas que não riem com qualquer piadinha e que não entram em discussões se não for para bater o martelo?

Teimosias e jeito ríspido a parte, deixei ela com Carlos e Vera. Eles aproveitaram para pôr o papo em dia e eu resolvi me concentrar nos negócios. Apesar do espírito, estando ele agarrado em mim ou não, o mundo continua a girar.

Liguei para Franz, que estava pelos EUA, não comentei nada sobre o descarrego ou possessões espirituais. Apesar disso, ele deve ter sentido meu tom de voz diferente e perguntou se estava tudo bem. Fugi do assunto e foquei no que precisava falar:

- Sabe que daqui umas noites vamos ter aquele encontro do nosso clã?

- Sei… (pausa dramática) tu ainda queres acordar a Audny, por causa do pedido do Georg, ou já superamos isso?

- Eu fico com o pé atrás de não seguir o que ele tinha deixado proposto pra gente, mas só rola não fazer isso se for uma decisão conjunta do clã.

- Nós dois tu queres dizer? Nenhum dos outros, nem o Sebastian está mais focado no clã.

- Olha é um papo que podemos ter, quem ainda faz parte do clã? Você, eu… H2 e a Pepe. Sebastian e os outros tão fazendo o que de importante que as vezes nem respondem mensagens de “oi”?

- Tá entendi maninho, é um papo pra colocar o pau na mesa e falar quem manda nessa porra?

- Caralho, não Franz… é pra ver se a gente se une em prol de algo de novo. Senão eu sinto que só cuido dos velhos, das fábricas e do dinheiro. E todo o resto? Eu passei os últimos tempos com o Carlos, sabe o meu irmão? A matilha deles é super unida… (fui interrompido por ele)

- Puta que pariu, vai vir de novo com esse lance de matilha, as merdas que os peludos fazem e tudo mais, brother?

- Não cara, eu tô puto de fazer tudo sozinho, você tá me ajudando mais com as reuniões, a Pepe e o H2 também, mas e os outros?

- Tá entendi. Nos falamos em breve então… não precisa de mais nada mesmo?

- Não! Nos falamos em breve!

Foi uma despedida bastante seca da minha parte. Refutei a ajuda dele na questão do espírito e segui fazendo meus afazeres. Estava puto pela conversa, mas era algo que sondava minha cabeça e precisava por pra fora. Pensei em pegar uma motinho de trilha que tenho na fazendo e dar uma extravasada, mas ao sair do escritório fui surpreendido pela Jaciara.

Que venha o descarrego

A lobisomem estava com outra roupa, um vestidinho florido que realçava ainda mais seu corpo magro e atlético. Rolou uma troca de olhares, mas antes que eu pudesse me manifestar ela segurou meu braço esquerdo com a maior força que tinha e praticamente me arrastou pra fora de casa.

No lado de fora Vera e Carlos nos aguardavam. Ao me ver Carlos foi logo. Me tranquilizando:

- Pedi pra Jaciara te chamar, acho que ela entendeu “puxar”.

Ela completou:

- Achei que o vampiro ia se enrolar e quero terminar logo com isso.

- Caralho moça, era só ter pedido que eu vinha – Desabafei meio puto.

Vera preferiu ser objetiva também:

- Pelo o que conversamos vai ser rápido. Trabalhoso, mas rápido. Por favor sente-se ali Ferdinand. Ali dentro daquele circulo – Apontou.

- Segura essa caixa e essa tampa ai. Teu único trabalho vai ser fechar ela quando for o momento certo. Você vai saber quando – Falou Jaciara.

Sem mais delongas eles começaram uma dança. Carlos começou a entoar um cântico ritual, algo do tipo “Hey hey hoaa… hey hey hoaa…” e foi seguido quase que de imediato pelas duas. Em determinado momento da dança eles tiram as roupas. Depois percebi que eles começaram a se transformar e em alguns instantes eu estava ali, rodeado por um Lican meio canino e duas com feições felinas.

O sentimento de nervosismo ou de fúria surgiu em mim. Porém, não tive vontade de se transformar tal qual eles, era mais como se algo me incomodasse… como se houvesse algum órgão doendo… como se eu estivesse com cólicas… como se o espirito estivesse se revirando…

Tal sensação se ampliou a ponto de eu querer me transformar… Sim, os meus genes Lican ferveram! Veio a vontade de pôr algo pra fora. Veio a vontade de virar uma besta feroz igual a todos ao meu redor! Transformei-me e uivei! Talvez tenha apavorado os Ghouls da fazenda.

Dizem que um vampiro que possui genes Lican tal qual eu, se transforma em algo próximo das bestas Licans, talvez uma versão menor e mais dentuça. Talvez com asas de morcego ou feições próximas. Dizem! Sei que me senti próximo deles, dos seus rosnados e da suas danças.

E o tempo passou devagar naquele transe, como se algo me controlasse e mais do que isso, como se o descarrego estivesse ocorrendo em mim. Instantes depois eu sabia que estava liberto. Entendi que eles me observavam e que ali seria o momento de fechar a caixa. Sem jeito, como se fosse um gigante manipulando uma miniatura eu o fiz. Prendi Ari, como os caça fantasmas fazem nos filmes e fiquei tranquilo. Calmo e pacato a ponto de relaxar e voltar a ter aparência humana.

O calor dos nossos corpos fazia o sereno evaporar da gente. Nus, nos entreolhamos. Dei uma leve risada, lembrei do vídeo/meme da Jéssica e comentei.

- Já acabou Jaciara?