Grimório

As tumbas dos anciões

Por Jean Felski em São Paulo

Publicado em 30/11/2021

As tumbas dos anciões

Queria saber como a poeira consegue surgir, mesmo em lugares no qual até então havia-se um fechamento digamos hermético. Esta foi minha reação ao adentrar as tumbas onde ficam nossos anciões. Mas isso foi apenas um levantamento rápido de minha mente inquieta. Pois o havia coisa mais importante a ser feitas naquele dia ou noite.

O tempo é algo que nos ocorre de forma diferente, mas certamente a poeira é um indício de que ele continua existindo. Passei um pano molhado sobre o caixão de Eleonor. Depois por alguns instantes me debrucei sobre ele e usei todos os meus instintos na intenção de ouvir ou sentir algo.

Nada! Apenas algumas gotas que se esvaiam pela lateral da cripta ou aqueles estalos comuns das cavernas. Nem mesmo os morcegos, nossos companheiros animais mais íntimos emitiam qualquer som.

Ainda falando sobre tempo, naquela data fazia exatos 6 anos em que minha doce espanhola iniciara sua hibernação. Tanto tempo a mais estava Georg também em sua hibernação e todos os outros que por lá protegemos.

Além da breve limpeza nos caixões, aproveitei também para revisar as partes elétricas e câmeras que fazem a vigilância das criptas e antessalas. Não de novo, além de algumas lâmpadas led que aproveitei para instalar. De tempos em tempos surgem tais novidades e é fundamental que tais espaços recebam upgrades.

Pepe apareceu num determinado momento

- Hey senhor eletricista preciso de uma ajuda com umas tomadas…

- Põe na agenda minha filha, hoje to ocupado aqui.

- Aff seu sem graça era zuera, não precisa ficar bravinho não Fe.

- Sabe que fico meio nostálgico vindo aqui…

- Sei… é ali que ela tá?

- Sim!

- George tá lá?

- É… Quer que faça um passeio guiado contigo?

- Nossa mas tá chatão mesmo hoje heimmm

- Se não fosse essa maldita fiação velha aqui eu estaria mais de boas vampirinha.

- A gente não pode transformar um ghoul pra ficar cuidando disso?

- Até podemos, mas as cosias estão tão tranquilas ultimamente que eu prefiro vir aqui pra me estressar um pouco.

- Sei, sabe Fê, aproveitando. Quando que você vai voltar pro mundo? Desde o início da pandemia nós viemos pra cá e tudo parou sabe… Já tô vendo os humanos de volta nas suas rotinas e nós aqui. Já cansei dos jogos novos que baixei, já ví todos os seriados possíveis…

Fiquei calado por um tempo, digerindo o que ela falava.

- É teu tempo ne, sou sua aprendiz e preciso estar junto de ti, mas será que a gente podia dar uma variada, pelo menos indo pra alguma outro lugar.

Estava evidente ali duas questões, o tédio dela e suas idade humana. Alguém que até então passava suas noites em claro no computador e que o vampirismo trouxe um mar de possibilidades.

Poderei por mais alguns instantes, gerei aquele silêncio climático e lhe devolvi.

- Acho que podemos variar um pouco sim.

Ela me abraçou e me encheu de beijos. Como uma filha beijaria o pai, diante a promessa de algo que ela queria muito. Ao final daquela jornada em torno da manutenção das criptas eu voltei para meus aposentos na casa da fazenda. Fui para minha banheira e juntos da água quente, misturada a sais de banho eu pensei. Adentrei o amago de meus sentimentos e decidi que deveríamos voltar para o mundo. Liguei para o Franz.